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WALTER HUGO KHOURI

Diretor, produtor, roteirista e montador.

Nasceu em 21 de outubro de 1929 na cidade de São Paulo. Faleceu (de enfarte) em 27 de junho de 2003 na cidade de São Paulo.

Cursou durante 2 anos a Faculdade de Filosofia da USP, abandonando-a para se iniciar no cinema. Trabalhou como assistente na preparação da produção de "O Cangaceiro" (1953), de Lima Barreto. Em 1951, começa as filmagens de seu primeiro longa-metragem, "O Gigante de Pedra" (1954), sendo que em 1952 a produção é interrompida 2 vezes e depois de alguns dias de filmagem em 1953 e de meses de trabalho na montagem e sincronização, o filme é concluído. Essa obra obedeceu ao esquema do que na época foi chamado de "cinema independente", feito à margem dos grandes estúdios, com recursos próprios e sem estrutura montada para a exibição. "O Gigante de Pedra" foi citado na imprensa como exemplo das dificuldades que um jovem cineasta é obrigado a enfrentar quando decide iniciar-se no cinema, principalmente se o faz fora dos grandes estúdios. Apesar de ter conseguido seu primeiro filme em condições mínimas de produção, o efeito desta obra sobre o resultado final do trabalho é visto como essencialmente nefasto. Não está em seu horizonte o aproveitamento criativo da precariedade, tema já vislumbrado em Nelson Pereira dos Santos e em Roberto Santos e que fôra uma das propostas centrais de Glauber Rocha. O horizonte de Khouri, na época, é a produção a nível industrial dos grandes estúdios. Já surgem aí, de forma suave, as diferenças que o irão isolar do movimento do Cinema Novo anos depois, tornando-o uma figura singular dentro do cinema brasileiro da década de 60.

Após a falência da Companhia Cinematográfica Vera Cruz em 1954 e a criação da Brasil Filmes (que passou a utilizar os estúdios e equipamentos da Vera Cruz), Walter Hugo Khouri dirige, nessa produtora, "Estranho Encontro" (1958). Esta obra foi filmada e concluída em 1957 e lançada em 1958. Contando somente com 5 personagens e possuindo grande densidade psicológica, o filme é campo de trabalho ideal para o estilo que o diretor já possuía e que marcará seus trabalhos posteriores. Em todo o filme se respira o classicismo das produções da Vera Cruz. Embora o cineasta não consiga aprofundar e dar densidade aos personagens, sente-se uma preocupação constante de explorar-lhes a solidão e o vazio existencial. Nessa obra, o estilo excessivamente carregado, beirando o manerismo vazio (overdose de rebuscamento sem substância), dá ao filme certa "aura" especialmente atraente hoje. Com o fim da Brasil Filmes, Khouri e seu irmão William tornam-se os proprietários dos estúdios e equipamentos da Vera Cruz, numa transação confusa.

"Fronteiras do Inferno" é realizado em 1958 utilizando Eastmancolor (uma excessão na época). O filme, feito em 2 versões (português e inglês), sofreu vários problemas com a revelação dos negativos nos E.U.A. A receptividade da crítica aos filmes de Khouri, no fim da década de 50, nos leva a um quadro ideológico anterior ao surgimento do Cinema Novo. Este quadro gira em torno de uma concepção da crítica mais prestigiosa do período, que incentiva o cinema dito "sério" em contraposição à chanchada. O cineasta é considerado o enfant terrible do cinema brasileiro "sério".

Em 1959, inicia-se as filmagens de "Na Garganta do Diabo" (1960), concorrendo depois, em 1960, ao Festival de Mar del Plata (Argentina), onde recebeu o prêmio de melhor roteiro. Um dos filmes mais bem acabados do diretor, tem o quadro ficcional costumeiro das obra de Khouri: ambiente fechado, onde o drama é explorado com um número pequeno de personagens. A situação extraodinária tem então, como conseqüência, conflitos pessoais e personalidades exponenciais. Rodado em parte nos estúdios da Vera Cruz, "Na Garganta do Diabo" já é um filme de um diretor maduro, ciente de suas potencialidades. Como de costume, os atores são otimamente dirigidos, sendo que a direção de atrizes sempre foi o ponto forte de Khouri. A dramaturgia da obra é ainda marcada pelo classicismo tanto na construção narrativa como no tom ficcional. O filme é carregado de artificialismo e estilização da natureza. O cineasta está muito distante da forma de exploração do ambiente geográfico cinema-novista que estouraria no ano seguinte. Repetindo a sua postura, a crítica elogia a coragem do diretor em fazer cinema "sério" no Brasil.

Na década de 60, Khouri continua mantendo uma produção de cunho essencialmente pessoal, apresentando filmes que destoam completamente do ambiente ideológico dominante em sua época. No entanto, existe um ponto em comum com a produção cinema-novista, que é a presença do "autor". Em 1961, o cineasta inicia "A Ilha", lançado em 1963. A estrutura dramática é a mesma dos outros filmes do diretor: num grupo isolado são potencializados conflitos pessoais e psicológicos.

Walter Hugo Khouri dirige, em 1964, "Noite Vazia", considerado como um de seus trabalhos mais bem feitos. O cenário é a São Paulo da época, e a câmera nos mostra de perto este ambiente urbano. A futilidade existencial dos protagonistas e a angústia dos mesmos face a esta realidade, é total. Não há questionamentos em termos de colocar alternativas sociais para a sua superação. A intenção do filme é aprofundar esse clima e acentuá-lo ao máximo através de um ritmo lento. Em "Noite Vazia", o cineasta consegue abandonar o classicismo gradiloqüente de suas primeiras obras para ir em direção a outro cinema de autor, então em voga na Europa. É fácil perceber a mudança autoral de Khouri nesse filme e seu encontro com um estilo que o satisfaz pessoalmente, o qual trabalharia nas produções seguintes. Em "O Corpo Ardente" (1966), o episódio de "As Cariocas" (1966) e "As Amorosas" (1967), temos um diretor próximo da narrativa moderna do cinema europeu do período, tanto a nível temático, quanto ao nível propriamente da linguagem. Um ritmo lento acompanha o desenvolvimento de personagens imersos numa existência vazia, tendo geralmente como cenário de fundo a realidade urbana. Fazem-se tentativas de elaboração mais sofisticada de dilemas existenciais com tonalidades de cunho filosófico, o que geralmente torna o filme mais pesado. "Noite Vazia" teve um razoável sucesso de público.

Tendo co-produção com a Columbia Pictures, "O Corpo Ardente" constitui com "Noite Vazia" e o episódio de "As Cariocas", a trilogia onde se sente a influência de Antonioni nos filmes de Khouri. Durante seu lançamento no Rio de Janeiro, em 1967, armou-se intensa polêmica em torno do filme, considerado por muitos críticos como "alienado". O cineasta realiza, em 1966, um episódio de "As Cariocas", onde desenvolve uma linha intimista dentro do estilo que vinha mantendo em seus 2 longas-metragens anteriores.

Em "As Amorosas", Khouri faz um diálogo mais próximo com sua época, embora conservando sempre as preocupações existenciais que caracterizam seu estilo. Sente-se nesta obra a presença da efervecência ideológica do final da década de 60, com discussões políticas e estéticas sobre os mais variados assuntos. A temática existencial, sempre com tonalidades filosóficas, surge com contraste à euforia ideológica estudantil.

"O Palácio dos Anjos" (1970) que, embora mantendo forte relacionamento com as obras anteriores, já aponta em direção à futura proximidade com a pornochanchada e a produção da Boca do Lixo paulista, que caracterizará os filmes posteriores do diretor. Em "O Palácio dos Anjos", chama a atenção o fascínio do diretor pelos rostos e expressões das 3 atrizes principais, que aparece manifesto num filme quase todo em primeiro-plano. Khouri se notabiliza por uma direção impecável de atores e pelas grandes interpretações que deles consegue extrair em seus filmes. Com especial talento para a escolha e o trabalho com as atrizes, faz com que elas sempre brilhem em seus filmes.

Khouri foi, durante muitos anos, um diretor relegado a segundo plano no panorama do cinema brasileiro. No entanto, a revisão de sua obra aponta em alguns de seus filmes uma atualidade que a obra do Cinema Novo hoje não tem. Autor com estilo forte e pessoal, conseguiu manter uma produção com características próprias, quando todo cinema brasileiro enveredava em outra direção. Embora seus trabalhos mais elaborados estejam no período analisado atrás, conservam, nas décadas de 70 e 80, o mesmo ritmo de filmagem, com quase um longa-metragem por ano. O ponto mais frágil de seus filmes está geralmente na elaboração dos roteiros, principalmente nas falas de seus personagens, nem sempre ao nível dos resultados obtidos pela obra como um todo. A proximidade com a dialética da pornochanchada surge nos anos 70 como uma temática que atrai o diretor, dando novas cores aos antigos dilemas existencias do começo de sua carreira.

O cineasta tem uma trajetória exemplar na década de 70. Utilizando diversificadas formas de produção, desenvolve preocupações variadas, deixa fluir inquietações estéticas permeadas pelo erotismo, pelo clima fantástico e pela constante obsessão plástica na construção de suas imagens. Em 1975, recebeu o Kikito de melhor diretor no Festival de Gramado por seu filme "O Anjo da Noite" (1974). Khouri não hesitou em trabalhar na Boca do Lixo em pleno auge da pornochanchada, dirigindo um filme memorável, "Convite ao Prazer" (1980). É quase uma refilmagem de "Noite Vazia". O que saiu foi uma obra ousada, instigante, com ambientações e atmosferas que oscilam entre o forte apelo sexual e o aterrorizante vazio, com cada seqüência trazendo embutida uma combinação de animalidade e angústia. O filme é modelar para o cinema erótico.

"Eu" (1986) é um filme com a marca do cineasta mas inevitavelmente diluído, com menor energia autoral, de olho nas grandes platéias.

FILMOGRAFIA

1954 O GIGANTE DE PEDRA diretor, roteirista e montador
1958 ESTRANHO ENCONTRO diretor e roteirista
1958 FRONTEIRAS DO INFERNO diretor, roteirista e montador
1960 NA GARGANTA DO DIABO diretor, roteirista e montador
1963 A ILHA diretor e roteirista
1964 NOITE VAZIA diretor, produtor
e roteirista
1966 O CORPO ARDENTE diretor, produtor
e roteirista
1966 AS CARIOCAS
(segundo episódio)
diretor e roteirista
1967 AS AMOROSAS diretor, produtor
e roteirista
1970 O PALÁCIO DOS ANJOS diretor, produtor
e roteirista
1971 PINDORAMA produtor
1972 AS DEUSAS diretor e roteirista
1973 O ÚLTIMO ÊXTASE diretor e roteirista
1974 O ANJO DA NOITE diretor e roteirista
1975 O DESEJO diretor e roteirista
1977 PAIXÃO E SOMBRAS diretor e roteirista
1978 AS FILHAS DO FOGO diretor e roteirista
1978 O PRISIONEIRO DO SEXO diretor e roteirista
1980 A PRIMA
(episódio)
diretor
1980 CONVITE AO PRAZER diretor e roteirista
1981 EROS, O DEUS DO AMOR diretor e roteirista
1982 AMOR ESTRANHO AMOR diretor e roteirista
1984 AMOR VORAZ diretor e roteirista
1986 EU diretor e roteirista
1993 FOREVER diretor e roteirista
1994 AS FERAS diretor
1998 PAIXÃO PERDIDA diretor e roteirista