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Entrevista com
Carlos Reichenbach

Realizada em
16/11/1999

Por Estevão Augusto

 

O que o levou a querer ser cineasta?
Aos oito anos de idade assisti uma leitura do roteiro, não filmado, de Oswaldo Sampaio (que era amigo de meu pai) "Jovita", baseado em novela de Dinah Silveira de Queiroz. Como minha formação foi essencialmente literária, já que meu pai era editor, fiquei fascinado pela forma narrativa do roteiro cinematográfico. Talvez essa tenha sido a gênese do meu interesse em fazer filmes. Com a morte de meu pai, em 1960, minha rota na direção da profissão de editor e industrial gráfico foi subvertida. Fui um cinéfilo inveterado em toda a minha adolescência. Na hora de escolher uma faculdade, optei pela Escola Superior de Cinema São Luiz, recém criada em 1965, porque como todo adolescente da minha geração achava que o cinema poderia mudar a realidade do país. No começo, queria ser roteirista. Foi um professor da São Luiz, o Luís Sergio Person ("São Paulo, Sociedade Anônima") quem me colocou na cabeça que eu deveria dirigir filmes.

Qual diretor mais o influenciou em toda sua carreira?
Foram vários. Entre eles, o próprio Person e o Oswaldo Sampaio. Entre os estrangeiros, os japoneses Shohei Imamura, Eizo Sugawa e Kenji Mizogushi. Mas entre todos os outros grandes, eu aponto três em especial: Fritz Lang, Godard e, sobretudo, Valério Zurlini.

Para você, o que significou o Cinema Marginal da Boca do Lixo e qual a sua importância hoje?
O Cinema Marginal, que acabou em 71 com a interdição dos filmes de João Silvério Trevisan e Carlos Alberto Ebert (respectivamente, "Orgia" e "República da Traição"), foi uma resposta ao momento político e repressivo da época. Foi também uma resposta às certezas do cinema político da geração imediatamente anterior. O Cinema Marginal trocou a subversão pela transgressão. Filmes baratos, niilistas, sujos, dementes e que procuravam diminuir a distância entre a arte e a vida. Queiram ou não, havia uma ideologia por trás de tudo. Hoje ele representa o viés mais rebelde da história do cinema brasileiro.

Poderá, um dia, voltar o estilo de filme da "Boca"?
Acho que o tal Dogma dos dinamarqueses tem muito haver com aquela opção pelo transgressivo e economicamente viável.

Em qual longa-metragem você se sentiu mais realizado?
O filmes que mais prazer me dão de rever são "Filme Demência" e "Império do Desejo", porque são os que vão mais longe em sua proposta inicial. O primeiro, por expor sem piedade as minhas frustrações e as minhas dores. O segundo porque leva até o limite do absurdo a idéia de subverter clichês.

Na sua opinião, o que falta ao cinema brasileiro para atrair um público igual ao dos filmes americanos?
Tudo. Essencialmente: espaço de exibição e dinheiro. Mas não acho que o ideal seja atingir o número dos tops americanos. Prefiro imaginar a existência de uma verdadeira "indústria" artesanal, que produza quantidade
com responsabilidade e diversidade com qualidade. Quando falo responsabilidade, penso em orçamentos viáveis e racionais, nem sub e nem super-orçados. Quando falo qualidade, penso em bom nível técnico, som perfeito e elenco compatível com personagens e orçamentos. Sempre digo que a palavra indústria cinematográfica me assusta. Usando de uma metáfora: acho que se é para fabricar relógio no Brasil, não dá para concorrer com Taiwan ou com os japoneses. No Brasil, só dá certo o produto personalizado.

Diga o filme que você considera como sendo o melhor de todos os tempos?
Prefiro citar os três filmes que mais me afetaram, artística e existencialmente: "O Desprezo" (Le Mépris), de Jean-Luc Godard, "A Palavra" (Ordet), de Carl Th. Dreyer, e "Dois Destinos" (Cronaca Familiare), de Valério Zurlini.

Quando não está filmando, qual ou quais são as suas atividades?
Várias. Eu leciono, colaboro com jornais de São Paulo, tenho uma coluna semanal no provedor ZAZ chamada CARTAS DE REICHENBOMBER, continuo a estudar e a compor música eletrônica, e, entre outras coisas, cuido cotidianamente da minha empresa produtora, a Dezenove Som e Imagens, na qual divido as responsabilidades com uma amiga e sócia: a produtora Sara Silveira.

Você vê um futuro promissor para o cinema brasileiro ou essa "retomada" é apenas momentânea?
O cinema brasileiro nunca vai morrer. Sua história é cíclica, cheia de altos e baixos e idas e vindas. E sem querer parecer arrogante, ele existe porque nós que teimamos em fazer filmes. Para fazer cinema no Brasil é preciso abdicar de muita coisa, menos do sonho e do prazer. Hoje você tem dinheiro, amanhã está empenhando o apartamento da família para não mudar de profissão. Se alguma coisa tende a desaparecer são os que estão de passagem, os que fazem filmes porque é "fashion" ou porque dá prestígio. No momento que esses pára-quedistas tiverem que passar fome para continuar fazendo filmes, eles zarpam. É cíclico! E é bom que seja assim.

Que o público está achando do filme "Dois Córregos"? Era o que você esperava?
Na verdade, a reação do público está muito além do que a gente esperava. Nós queríamos que o filme emocionasse, mas imaginávamos que o efeito atingiria mais uma certa geração. E tem sido justamente o público mais jovem que tem respondido melhor ao filme. Nosso maior orgulho, no entanto, é poder dizer que após o lançamento somente em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, já começamos a pagar dividendos aos investidores. O filme foi lançado pontualmente, capital por capital, cidade por cidade, por isso o bom andamento só pode ser verificado na renda acumulativa. Pelo que custou na produção e gastou no lançamento, e o resultado que obteve nos cinemas de arte e ensaio, o filme até que se deu bem.

Quais são seus próximos projetos?
Eu e minha sócia estamos trabalhando intensamente na captação do longa-metragem "Aurélia Schwarzenêga", o filme piloto da série ABC-Clube Democrático. Trata-se de uma saga sobre operárias têxteis do ABCD paulista. Um projeto ambicioso, e pelo qual eu ganhei a Bolsa Vitae de Artes para poder desenvolver os roteiros de quatro longas-metragens. Ganhei também o prêmio do FINEP e da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual para reescrever o roteiro do quarto filme da série "A Fiel Operária Suzy Di". Ao mesmo tempo, estamos tentando captar recursos para a realização de um pequeno longa-metragem, de custo irrisório, mas que dará início à outra série: "4 Pensatas Libertárias de Carlos Reichenbach". O primeiro filme desta série chama-se "A Rebeldia É uma Mulher". Se tudo der certo, quero filmá-lo antes de junho de 2.000. Volto com este filme ao espírito de produção de "Alma Corsária" e "Lilian M.", onde fui o roteirista, o músico, o operador de câmera, o diretor de fotografia, e, obviamente, o diretor. Se der, faço até uma pontinha. Só não monto e edito o som, porque sou péssimo nisso, e não abdico da parceria com a montadora Cristina Amaral. Essa é a idéia: se houver grandes condições, filmo "Aurélia", com elenco de peso, equipe técnica de primeira, estúdios da Vera Cruz (onde pretendo montar, com o diretor de arte Luís Rossi, uma unidade da indústria têxtil, abafando o som dos teares com feltro para poder filmar em som direto) e parcerias com as tevês européias (com as quais já estamos conversando); se as condições forem mínimas, filmo "A Rebeldia É uma Mulher", assumindo várias funções, filmando sem som direto, com um elenco de estreantes ou dos atores que tem participado de meus cursos na Oswald de Andrade e com a parceria de uma equipe pequena mas fiel. Como você vê, projetos é que não faltam. Há um outro filme que eu prometi a mim mesmo fazer um dia, e que encerra um ciclo de filmes baseados na própria experiência de vida. Chama-se "O Amigo Católico", e que, por ser uma produção de custo médio, pode acontecer entre um filme e outro. Não tenho pressa. Gostaria apenas de viver o tempo necessário para poder viabilizar pelo menos um terço de meus trinta projetos já esboçados no papel.

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